Mensagens analisadas pela Polícia Federal e divulgadas em matéria do Jornal O Globo indicam que uma rede ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro tentou influenciar resultados do Google para reduzir a visibilidade de notícias negativas. O plano incluía produzir conteúdos positivos para disputar espaço nas pesquisas aliados a uma estratégia de link building para ganho de backlinks.
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De acordo com o relatório da operação Compliance Zero, investigadores encontraram diálogos em que um aliado de Vorcaro afirma ter separado “links negativos bem ranqueados” e iniciado ações para derrubá-los, ao mesmo tempo em que planejavam publicar novos conteúdos para aparecer no topo das buscas quando o nome de uma influenciadora associada ao caso fosse pesquisado.
O assunto foi tema do programa Otimização Semanal. Confira o debate entre Flávia Crizanto, Lisane Andrade e Cadu Alves:
A investigação aponta que o grupo discutia estratégias digitais paralelas à tentativa de remover ou neutralizar matérias desfavoráveis. A ofensiva fazia parte de um conjunto mais amplo de ações que também envolvia negociações com veículos e tentativas de influenciar a cobertura jornalística.
SEO na crise
No Otimização Semanal, o caso foi tratado como um exemplo emblemático da banalização e falta de conhecimento de estratégias de SEO do SEO. “O SEO é uma estratégia bastante disseminada, mas ainda surpreende quando vemos a tentativa de utilização nesses casos. A impressão que ficou é que as pessoas acreditam na possibilidade de resultados rápidos e mágicos. E temos o dever de informar que não é assim”, comentou Flávia Crizanto, fundadora da Experta, e também apresentadora do Otimização Semanal.
O problema não está no uso do SEO em si, mas na leitura simplificada de como ele funciona. A estratégia descrita — produzir conteúdos positivos para empurrar negativos — parte de uma lógica antiga de ocupação de SERP, mas ignora a complexidade atual do algoritmo.
Esse ponto expõe uma confusão recorrente no mercado: tratar SEO como uma ferramenta tática de curto prazo, quando, na prática, ele opera como um sistema de construção de autoridade ao longo do tempo. Em contextos sensíveis, como crises reputacionais, essa diferença se torna ainda mais evidente. “O Google vai mostrar sites que ele acredita que têm um padrão de confiança suficiente para falar daquele tema”, destacou .
Autoridade e E-E-A-T: por que não basta criar conteúdo
Isso conecta diretamente com o conceito de E-E-A-T (experiência, expertise, autoridade e confiança), que define quais fontes têm legitimidade para aparecer em temas críticos. Não se trata apenas de publicar conteúdo, mas de quem publica, com qual histórico e com qual reconhecimento.
Outro ponto central é a expectativa irreal sobre velocidade de resultado. Mesmo com investimento em conteúdo e backlinks, não há efeito imediato. “Isso não vai acontecer do dia para a noite. Quantidade de backlinks não vai resolver esse problema”, afirmou Flávia .
Na prática, o caso revela um erro clássico de gestão de reputação digital: tentar responder a um pico de exposição com ações táticas isoladas. Em ambientes de alta cobertura, como escândalos amplamente noticiados, o volume e a velocidade da informação tornam qualquer tentativa de “empurrar” conteúdo negativo estruturalmente limitada.
Há ainda um desalinhamento com o próprio formato da busca atual. Como observado no programa, a busca atual é multimodal. Ou seja, resultados aparecem em diferentes formatos: conteúdo em vídeo, TikTok, Instagram, YouTube” . O que significa que mesmo que a estratégia funcionasse parcialmente em texto, ela já nasceria defasada frente à dinâmica multimodal da SERP.
Link building e conteúdo não resolvem reputação no curto prazo
Isso reforça um ponto mais amplo: reputação não se resolve apenas com SEO, mas, mesmo assim, ele representa uma interface importante e complementar para a estratégia.
Reputação em tempos digitais é resultado de uma combinação de PR, autoridade de marca, presença multicanal e histórico de confiança. O SEO amplificar e reflete essa reputação, mas dificilmente consegue reescrevê-la no curto prazo.
Como sintetizado no programa, estratégias reativas e superficiais tendem a falhar: “realizar estratégias rasas, sem um planejamento, só querendo fazer uma gestão de crise, não vai funcionar” .
E talvez o ponto mais relevante seja ético. Em um cenário onde SEO, PR e IA se cruzam, a linha entre otimização e manipulação se torna mais sensível. Por isso, o alerta final dos apresentadores é direto: “ter estratégia e ética são dois pontos extremamente importantes” .